terça-feira, 15 de março de 2011

Por que o Cristianismo falhou em criar raízes no Japão?



Ao contar a história de Shusaku Endo - um escritor japonês do século XX que escreveu com a singular perspectiva de ser japonês e católico - Philip Yancey, no livro “Alma Sobrevivente” expõe sobre a cultura japonesa e o evangelho.

“(...)  Shusaku Endo acredita que o cristianismo falhou em provocar um grande impacto no Japão porque os japoneses ouviram apenas um lado da história. Eles ouviram sobre a beleza e a majestade. Os turistas japoneses visitam Chartres² e a Abadia de Westminster³ com suas câmeras digitais e registram imagens de glória; corais japoneses executam as obras-primas religiosas de Handel e Bach. Mas, de alguma maneira, os japoneses sentem falta de outra mensagem: a de um Deus que "a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo"; de um Filho de Deus que chorou, quase desesperado, quando se aproximava de Jerusalém.


Por que o cristianismo é virtualmente a única prática ocidental que falhou em criar raízes no Japão, que tão rapidamente adotou o beisebol, o McDonald's e o rock? Seguindo outra linha de pensamento, Endo liga seu fracasso à ênfase ocidental na paternidade de Deus. O terapeuta Erich Fromm diz que um filho de uma família equilibrada recebe dois tipos de amor. O da mãe tende a ser incondicional, aceitando a criança, independentemente do que ela faça ou de como se comporte. O amor do pai apresenta a tendência de ser mais voltado à provisão, mostrando aprovação quando a criança apresenta certos padrões de comportamento. Numa situação ideal, diz Fromm, uma criança deveria receber e internalizar os dois tipos de amor. De acordo com Endo, o Japão, uma nação de pais autoritários, entendeu o amor de pai de Deus, mas não o amor de mãe.

Um velho ditado japonês lista as quatro coisas mais horríveis do mundo como sendo "incêndios, terremotos, relâmpagos e pais". Em minhas viagens ao Japão, muitas pessoas me falaram de seus pais autoritários que nunca pedem desculpas, são emocionalmente distantes, não demonstram nada que se pareça com amor ou graça, que fazem muitas críticas e poucos elogios. Uma mulher chegou a dizer-me que havia planejado matar seu pai quando tinha 13 anos, depois de ter sido sexualmente abusada por ele. Com medo da pena capital, optou por ir estudar nos Estados Unidos. Quando sua mãe morreu, o pai ordenou que ela voltasse para cuidar dele e, de acordo com o costume japonês, ela sentiu-se obrigada a fazê-lo. "No mês passado, pela primeira vez na vida, meu pai agradeceu por algo que eu havia feito", disse-me ela. "Considero isto uma verdadeira vitória."

A conclusão de Endo é que, para que o cristianismo apresente algum apelo ao povo japonês, precisará enfatizar o amor materno de Deus, o amor que perdoa erros, cura feridas e atrai os outros para si, em vez de forçá-los a vir ("Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" - Mt 23:37). "É na religião maternal que Cristo vai a prostitutas, pessoas deformadas e sem valor, e as perdoa", diz Endo. Segundo sua visão, Jesus trouxe a mensagem do amor materno para equilibrar o amor paterno do Antigo Testamento. O amor de mãe nunca esmorece, mesmo diante de um filho que comete um crime: esse amor perdoa qualquer fraqueza. Para Endo, o que realmente impressionou os discípulos foi a percepção de que Cristo ainda os amava, mesmo depois de eles o terem traído. Ter seu erro apontado por alguém não era nada de novo; ter seu erro descoberto e, ainda assim, ser amado era realmente novo.”




² Chartres - A Catedral de Chartres teve a sua construção iniciada em 1145 e foi reconstruída após um incêndio de 1194. Marca o zénite da arte gótica na França. A vasta nave, em puro estilo ogival, os adornos com estátuas finamente esculpidas de meados do século XII e as magníficas janelas com vitrais dos séculos XII e XIII, todas em notável estado de conservação, combinam-se para formar uma obra-prima inigualável. Tem uma área superior a 10000 m2, 130 m de comprimento e largura máxima de 46 m.
 ³Abadia de Westminster - A Igreja do Colagiado de São Pedro em Westmisnter mais conhecida como Abadia de Westminster (em inglês:Westminster Abbey) é uma grande igreja em estilo gótico na Cidade de Westminster, sendo considerada a igreja mais importante de Londres e, algumas vezes, de toda a Inglaterra. É famosa mundialmente por ser o local de coroação do Monarca do Reino Unido. Entre 1546 e 1556 obteve estatus de Catedral e atualmente é uma Royal Peculiar.

Yancey, Philip – Alma Sobrevivente: Sou Cristão, Apesar da Igreja – São Paulo: Mundo Cristão, 2004.




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