terça-feira, 15 de março de 2011

A sabedoria do lenhador

Ao nos depararmos com tantas tragédias como estamos presenciando. Tragédias de proporções tão grandes como no Japão. Sempre tentamos tirar conclusões, há sempre a pergunta se é ou não a vontade de Deus, se é castigo, se é somente um acidente... Este texto do Max Lucado nos ajuda a refletir e olhar todo acontecimento por uma outra janela...





Você compraria uma casa se permitissem você ver apenas um de seus cômodos? Você compraria um carro se só deixassem você ver seus pneus e uma luz traseira? Você julgaria um livro depois de ler apenas um parágrafo?

Nem eu.

Um bom julgamento requer um amplo conhecimento. Isso não só é verdade nas compras de casas, carros e livros, como também na avaliação da vida. Uma falha não faz da pessoa uma fracassada; uma realização não faz da pessoa um sucesso.

“Melhor é o fim duma coisa do que o princípio”,1 disse o sábio.

“Sede pacientes na tribulação”,2 repetiu o apóstolo Paulo.

“Não julgue uma frase por uma palavra”, declarou o lenhador.

O lenhador? Ah, você pode não conhecê-lo. Deixe-me apresentá-lo a você.


Eu o conheci no Brasil. Ele me foi apresentado por um amigo que sabia que eu precisava de paciência. Denalyn e eu estávamos a seis meses no Brasil com um visto de cinco anos e eu estava decepcionado. Minha fascinação pelo Rio de Janeiro tornou-se em irritação com as palavras que não conseguia falar e com a cultura que não entendia.

“Tenha paciência”, Maria me dizia. Ela era minha tradutora. Mas, além disso, ela tinha uma voz calma em uma tempestade barulhenta. Com persistência materna, corrigia minha pronúncia e me ajudava a amar sua pátria.

Certa vez, no meio de uma semana frustrante por tentar retirar nossos bens da alfândega (o que eventualmente levou três meses), ela me passou essa história como lição de casa. Ela ajudou bem mais minha postura do que ajudou meu português.

É uma fábula simples. Mas para nós que tentamos julgar a vida com evidências de apenas um dia, a mensagem é profunda. Não fiz nada para enfeitá-la, apenas a traduzi. Oro para que ela lembre você, como fez comigo, que a paciência é a maior coragem.
* * *
Certa vez, havia um senhor que morava em uma pequena vila. Embora fosse pobre, todos o invejavam porque era dono de um lindo cavalo branco. Até o rei desejava o seu tesouro. Nunca se tinha visto um cavalo como este antes – tão grande era seu esplendor, sua majestade, sua força.

As pessoas ofereciam preços fabulosos por ele mas o senhor sempre recusava. “Este cavalo não é um cavalo pra mim,” ele dizia. “Considero como uma pessoa. Como você poderia vender uma pessoa? Ele é um amigo, não uma posse. Como você poderia vender um amigo?” O homem era pobre e a tentação era grande. Mas ele nunca vendeu o cavalo.

Uma manhã ele viu que o cavalo não estava no estábulo. Toda a vila veio vê-lo. “Seu velho bobo,” eles zombavam, “nós te avisamos que alguém iria roubar seu cavalo. Nós te avisamos que ele seria roubado. Você é tão pobre. Como você podia imaginar que iria proteger um animal tão valioso? Seria melhor tê-lo vendido. Você poderia ter conseguido qualquer preço que quisesse. Nenhuma quantia seria muito alta. Agora o cavalo se foi e você foi atingido por essa infelicidade.”

O senhor respondeu, “não vão tão longe. Digam apenas que o cavalo não está no estábulo. Isso é tudo que sabemos; o resto é dedução. Se foi uma desgraça ou não, como vocês podem saber? Como vocês podem julgar?

As pessoas responderam. “Não pense que somos bobos! Podemos não ser filósofos, mas não é necessária muita filosofia. O simples fato do seu cavalo ir embora é uma desgraça.”

O senhor falou de novo. “Tudo que sabemos e que o estábulo está vazio e o cavalo foi embora. O resto eu não sei. Se é uma desgraça ou uma bênção, eu não sei. Só podemos ver uma parte. Quem pode dizer o que virá a seguir?”

O povo da vila ria. Pensavam que o homem estava louco. Sempre tinham considerado o homem bobo. Se ele não o fosse, teria vendido o cavalo e vivido com o dinheiro. Mas ao invés disso, ele era um pobre lenhador, um senhor idoso ainda cortando lenha, arrastando-a para fora da cidade para vendê-la. Ele vivia na miséria da pobreza. Agora ele provou que realmente era um tolo.

Depois de quinze dias o cavalo voltou. Ele não tinha sido roubado. Ele fugiu para a floresta. Não só voltou como também trouxe uma dúzia de cavalos selvagens com ele. Mais uma vez, o povo da cidade se juntou em volta do lenhador e disse. “Senhor, você estava certo e nós estávamos errados. O que pensávamos que era uma desgraça era uma bênção. Por favor nos perdoe.”

Então o homem respondeu: “Mais uma vez vocês foram longe demais. Digam apenas que o cavalo voltou. Digam apenas que doze cavalos vieram com ele mas não façam suposições. Como vocês sabem se é uma bênção ou não? Vocês vêem apenas uma parte. A não ser que vocês saibam toda a história, como podem saber? Vocês leram apenas uma página de um livro. Como podem julgar todo o livro? Vocês leram apenas uma palavra da frase. Como podem entender a frase inteira?”

“A vida é muito ampla mas vocês julgam toda a vida com uma página ou uma palavra. Tudo que vocês têm é um pedaço! Não digam que é uma bênção. Ninguém sabe. Estou feliz com o que sei por enquanto. E não estou perturbado com o que não sei.”

“Talvez o senhor esteja certo,” diziam uns para os outros. Então falaram pouco. Mas lá no fundo, sabiam que ele estava errado. Sabiam que era uma bênção. Doze cavalos selvagens vieram com um cavalo. Com um pouco de trabalho, os animais poderiam ser domesticados e vendidos por muito dinheiro.

O senhor tinha um filho, um único filho. O jovem começou a domesticar os cavalos selvagens. Depois de alguns dias, ele caiu de um dos cavalo e quebrou as duas pernas. Mais uma vez os moradores da vila se juntaram ao redor do senhor e lançaram seus julgamentos. “Você estava certo”, eles disseram. “Você provou que estava certo. Os doze cavalos não eram uma bênção. Eram uma desgraça. Seu único filho quebrou as pernas e, agora com idade avançada, você não tem ninguém para te ajudar. Agora você está mais pobre do que nunca.”

O senhor falou novamente. “Vocês são obcecados por julgamento. Não vão longe demais. Digam apenas que meu filho quebrou as pernas. Quem sabe se é uma desgraça ou uma benção? Ninguém sabe. Temos apenas um pedaço. A vida vem em partes.”

Aconteceu que, algumas semanas depois, o país entrou em guerra contra um país vizinho. Todos os homens jovens da vila foram convocados para entrar no exército. Apenas o filho do senhor foi excluído porque estava ferido. Mas uma vez o povo se juntou em volta do senhor chorando e lamentando porque seus filhos foram levados. Havia uma pequena chance deles retornarem. O inimigo era forte e a guerra seria uma luta perdida. Eles nunca veriam seus filhos novamente.

“Você estava certo, senhor,” eles choravam. Deus sabe que você estava certo. Isso prova. O acidente do seu filho foi uma bênção. Suas pernas podem estar quebradas mas ao menos ele está com você. Nossos filhos se foram para sempre.”

O senhor falou de novo. “É impossível conversar com vocês. Vocês sempre tiram conclusões. Ninguém sabe. Digam apenas isso: seus filhos foram pra guerra e o meu não. Ninguém sabe se é uma bênção ou uma desgraça. Ninguém é sábio demais para saber. Só Deus sabe.”
* * *
O senhor estava certo. Apenas sabemos uma parte. Os infortúnios e horrores da vida são apenas uma página de um grande livro. Não devemos ficar tirando conclusões. Devemos esperar para tirar conclusões das tempestades da vida até sabermos a história inteira.

Não sei onde o lenhador aprendeu a ter paciência. Talvez de um outro lenhador da Galiléia. Porque foi um Carpinteiro que disse:

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã. Basta a cada dia o seu mal.” 3

Ele devia saber. Ele é o autor da nossa história. E Ele já escreveu o último capítulo.





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