terça-feira, 15 de março de 2011

Um Pouco da História da Igreja no Japão

Com os acontecimentos no Japão lembrei deste trecho do livro “Alma sobrevivente” de Philip Yancey que relata um pouco sobre a Igreja no Japão. Ao contrário do que muitos pensam, Philip Yancey conta que o Japão já foi um campo frutífero para o cristianismo e muitos cristãos japoneses morreram ao não negarem a Jesus Cristo. Leia, a baixo, sobre esta admirável história:

Fumie: Um retrato em bronze de Jesus na cruz, 
exibidas em Clover Garden, Nagasaki, Japão. 
“(...) Em determinada época da História, o Japão parecia ser o mais frutífero campo missionário na Ásia. Francisco Xavier, um dos sete jesuítas originais, chegou àquele país em 1549 e passou dois anos estabelecendo uma igreja. Em uma geração, o número de cristãos havia aumentado para 300 mil. Xavier chamava o Japão "alegria do meu coração (...) O país oriental mais adequado ao cristianismo".

Com o fim do século, porém, começou a crescer a suspeita que os shoguns* tinham dos estrangeiros, especialmente exacerbada pela divisão entre os cristãos, o que levou a uma mudança na política. Os shoguns expulsaram os jesuítas e exigiram que todos os cristãos renunciassem à sua fé e se confessassem budistas. Ocorreram 26 crucificações, e a era do martírio de cristãos no Japão teve início.


O fumie - um retrato em bronze de Jesus ou de Nossa Senhora com o menino enquadrado numa pequena moldura de madeira - tornou-se o derradeiro teste de fé. Os japoneses que concordavam em pisar no fumie eram declarados cristãos apóstatas e eram libertados. Os que se recusavam eram perseguidos pelos shoguns e assassinados, na mais bem-sucedida tentativa de extermínio da história da Igreja. Alguns eram amarrados em estacas na praia, esperando a maré alta que os afogaria lentamente, enquanto outros eram amarrados e jogados de barcos; alguns eram escaldados em fontes de águas quentes e ainda outros eram amarrados de cabeça para baixo em valas cheias de corpos mortos e excrementos. Fui criado ouvindo histórias inspiradoras de mártires que promoviam o crescimento da causa. "O sangue dos cristãos é a semente da Igreja", disse Tertuliano. Não foi assim no Japão, em que o sangue dos mártires provocou a quase aniquilação da Igreja.

Quase, mas não totalmente. No fim do séculoXIX, quando o Japão finalmente permitiu que uma igreja católica em Nagasaki atendesse a visitantes ocidentais, os sacerdotes ficaram surpresos ao ver cristãos japoneses descendo das colinas. Eles eram os kakure kirishitans, ou os "cristãos das catacumbas", os quais continuaram se reunindo em locais secretos por um período de 240 anos. Porém, a adoração sem o benefício de uma Bíblia ou de um livro de liturgia cobrou seu preço. Sua fé sobreviveu como um curioso amálgama de catolicismo, budismo, animismo e xintoísmo. Com o passar dos anos, as palavras em latim da liturgia se transformaram num tipo de pidgin, uma mistura de línguas. "Ave Maria gratia plena dominus tecum benedicta" tornou-se "Ame Maria karassa binno domisu terikobintsu", e ninguém tinha a mínima idéia do que estas palavras queriam dizer. Os cristãos reverenciavam o "deus particular", uma trouxa de panos enrolada em volta de medalhas e estatuetas cristãs, as quais ficavam escondidas num pequeno cômodo disfarçado de altar budista.

Em uma das terríveis ironias da História, a segunda bomba atômica explodiu exatamente sobre a maior comunidade cristã do Japão, destruindo a Catedral de Nagasaki. Nuvens haviam impedido a visão do alvo original, forçando a equipe de bombardeio a se desviar para um alvo secundário. Um museu da cidade, hoje reconstruída, traça a história do cristianismo no Japão, apresentando relíquias da época dos mártires cristãos japoneses.”


Shoguns - O termo shōgun (em japonês: 将軍? lit. "Comandante do exército"), em português xogum, foi um título e distinção militar usado antigamente no Japão. Era concedido diretamente pelo Imperador.

Fumie (踏み絵): Um retrato em bronze de Jesus na cruz, exibidas em Clover Garden, Nagasaki, Japão. Cristãos japoneses foram perseguidos no Japão, e, portanto, tinha de seguir sua religião em segredo. As autoridades locais tentaram distinguir os cristãos dos não-cristãos (os budistas e xintoístas). Quem não queria pisar no fumie era suspeito de ser um cristão.

Cerca de 30 mil desses cristãos kakure ainda cultuam hoje em dia, e 80 igrejas caseiras conservam a tradição do "deus particular". Os católicos romanos tentaram recebê-los e trazê-los de volta à linha principal da fé, mas os kakure resistiram. "Não temos qualquer interesse em nos juntarmos a esta igreja", disse um de seus líderes, depois de uma visita ao papa João Paulo II. "Nós, e ninguém mais, somos os verdadeiros cristãos" (nota do autor).

Yancey, Philip – Alma Sobrevivente: Sou Cristão, Apesar da Igreja – São Paulo: Mundo Cristão, 2004.


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